Nota Técnica: DESPRESCRIÇÃO DE INIBIDORES DE BOMBA DE PRÓTONS (IBP) - Autoria: Marina Pugina de Paula e Isabelle dos Santos Mendonça
Os inibidores de bomba de prótons (IBP) estão inclusos na lista de fármacos mais prescritos mundialmente. São indicados para o tratamento de doenças gástricas e agem inibindo a produção de ácido clorídrico nas células parietais do estômago (SILVEIRA; MELO, 2019). Apresentam eficácia no tratamento e são bem tolerados pelos pacientes que normalmente não relatam efeitos adversos. Entretanto, é comum observar pacientes que prolongam o uso de IBP além do tempo recomendado e médicos que prescrevem essa classe de medicamentos para tratamento de condições sem evidência clínica de eficácia, contribuindo para a polifarmácia, não adesão, erros de medicação e interações medicamentosas (FARRELL et al., 2017).
No Brasil atualmente são comercializados os seguintes IBP: Omeprazol, Lansoprazol, Pantoprazol, Rabeprazol, Dexlansoprazol e Esomeprazol. Em um estudo brasileiro que avaliou o uso indiscriminado de IBP, o omeprazol e/ou outros IBP estavam presentes em 8,05% dos receituários analisados sempre com medicamentos de uso contínuo, sendo ele o IBP mais prescrito dentre os demais (SALGADO et al., 2019). O risco de prejuízos à saúde devido ao uso prolongado de omeprazol aumenta, visto que a maioria dos pacientes identificados são de idade avançada e possuem a prescrição desse IBP por tempo prolongado sem justificativa de uso (COSTA; DAMASCENA, 2020).
Além das despesas que o uso indiscriminado de IBP gera aos sistemas de saúde (públicos e privados), há evidências clínicas de prejuízos à saúde pelo uso prolongado dessa classe de medicamentos (FARRELL et al., 2017; LEE; MCDONALD, 2020). Pode ocorrer o aumento do risco de fraturas devido um enfraquecimento dos ossos, pois há influência no metabolismo ósseo diminuindo a absorção de cálcio. Com a diminuição da acidez estomacal pode surgir um quadro de pneumonia, visto que o ambiente fica favorável a uma proliferação bacteriana e os pacientes com DRGE (doença por refluxo gastroesofágico) podem microaspirar o conteúdo gástrico direcionando as bactérias provenientes dessa alteração da flora intestinal para os pulmões (VIEIRA; BORJA, 2018). Além disso pode-se observar uma redução na absorção de importantes vitaminas e minerais, no caso a vitamina B12 e o ferro, um fator muito preocupante em idosos, pois essas deficiências contribuem no desenvolvimento de quadros de demência (SILVEIRA; MELO, 2019).
A fim de que o paciente tenha segurança em seu tratamento medicamentoso, o profissional de saúde deve contribuir evitando expô-lo a possíveis riscos e efeitos indesejados de um uso prolongado, desse modo a desprescrição de IBP se torna uma alternativa relevante a se considerar para a melhora da qualidade de vida do paciente (SILVEIRA; MELO, 2019).
Em quais casos deve-se manter o uso de IBP?
Para realizar a desprescrição dos medicamentos inibidores da bomba de prótons foi utilizado como referência o algoritmo proposto pela Desprescribing e nele é possível encontrar o passo-a-passo desse procedimento. Na primeira etapa é necessário compreender porque o paciente está fazendo uso de IBP, investigando se foi realizado endoscopia, se alguma vez esteve hospitalizado por hemorragia secundária a úlcera ou por uso crônico de AINE (anti-inflamatório não esteroidal), se já apresentou azia ou dispepsia. O tratamento com os Inibidores de Bomba de Prótons só deve prosseguir na presença de esôfago de Barrett, usuários crônicos de AINE com risco de hemorragia, esofagite grave e/ou com história documentada de hemorragia de úlcera gastrintestinal e, consultar um gastroenterologista se considerar a desprescrição (FARRELL et al., 2017).
Quando a desprescrição é indicada?
Se for comprovado casos de tratamentos de úlcera péptica por 2-12 semanas (causada por uso de AINE ou infecção por H. pylori), sintomas gastrintestinais superiores sem endoscopia (assintomático por 3 dias consecutivos), profilaxia da úlcera já tratada na UTI após admissão e infecção por H. pylori não complicada (tratada por 2 semanas e com o paciente assintomático) a desprescrição dos IBP é recomendada com a interrupção imediata do medicamento.
Se após as investigações a indicação dos medicamentos ainda permanecer desconhecida ou o paciente possuir esofagite leve a moderada ou Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) tratado por 4-8 semanas (esofagite cicatrizada, sintomas controlados) recomenda-se realizar a desprescrição. Nessa situação o correto seria diminuir a dose pois, não oferece risco em comparação a continuidade de uso da dose mais alta, ou parar o IBP e usar sob demanda com uso diário até o desaparecimento dos sintomas, escolhendo o que for mais conveniente e aceitável para o paciente. Ademais essa etapa deve ser realizada com o monitoramento no período da 4ª a 12ª semana, se o paciente for capaz de falar deve monitorar o aparecimento de azia, regurgitações, dispepsia e dor epigástrica. Entretanto, se ele não for capaz de falar é muito importante atentar-se para o aparecimento de perda de apetite, agitação ou perda de peso.
Vale ressaltar a importância de gerenciar os sintomas ocasionais com antiácidos antagonistas do receptor H2 (Histamina, Cimetidina, Ranitidina e Famotidina), IBP, alginatos ou antagonistas do receptor H2 diariamente (fraca recomendação pois 1/5 dos pacientes podem ter retorno dos sintomas). Caso haja o reaparecimento dos sintomas teste e trate H. pylori ou reconsidere o retorno à dose anterior.
A ingestão diária dessa classe de medicamento é suficiente para resolver os sintomas relacionados com o refluxo e após o fim dos sintomas o tratamento é descontinuado. Por fim, o engajamento de paciente e cuidadores é essencial para alcançar a eficácia desse algoritmo e para que isso ocorra é ideal que eles entendam a justificativa para a desprescrição (riscos do uso continuado de IBP pois a terapia a longo prazo pode não ser necessária) e o processo de desprescrição (FARRELL et al., 2017).
Abordagens não farmacológicas
Em conjunto com o processo de monitorização, o médico deve orientar o paciente com abordagens não farmacológicas, como por exemplo: evitar refeições 2 a 3 horas antes do horário de dormir, elevar a cabeceira da cama, incentivar a redução de peso se necessário e evitar alimentos que desencadeiam os sintomas gástricos (FARRELL et al., 2017).
Referências
B, POTTIE K, THOMPSON W, BOGHOSSIAN T, PIZZOLA L, RASHID FJ, et al.
Deprescribing proton pump inhibitors. Evidence-based clinical practice guideline.
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